Editorial

Frederico Braida

Resumo


Tal como preconizado pela Constituição Federal Brasileira, a produção do conhecimento universitário tem se pautado na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Levando-se em conta essa tríade, podemos observar que, contemporaneamente, os saberes acadêmicos têm sido estabelecidos sob uma perspectiva de interação com outros saberes e outras formas de se conhecer o mundo, rompendo, por vezes, as barreiras dos campos disciplinares específicos, hibridizando teoria e prática, reflexão e ação.

Portanto, a partir de um olhar atento, pode-se dizer que é nesse panorama, de múltiplas complexidades e inter-relações, que as produções do campo do design, sobretudo aquelas de extração científica, acadêmica ou universitária, têm se dado. Os artigos apresentados nesta edição da Revista Estudos em Design ratificam esse cenário e testemunham tanto preocupações de fundo epistemológico e teórico quanto reflexões que emergem de proposições empíricas e pragmáticas.

O que se percebe são movimentos dialógicos de aproximação entre incursões introspectiva-disciplinares e extrovertida-transversais, os quais fomentam as discussões a respeito do design na contemporaneidade e trazem, à pauta, temáticas relacionadas aos aspectos projetuais e metodológicos, às práticas criativas e colaborativas, além de subsidiarem reflexões sobre o ensino e o meio profissional.

Em “Um exercício de colaboração por meio de práticas projetuais: Mães Inosel”, Bárbara de Oliveira e Cruz, Rita Maria de Souza Couto e Roberta Porta apresentam os resultados de uma pesquisa, que também pode ser compreendida como uma ação extensionista de capacitação, envolvendo as mães do Instituto Nossa Senhora de Lourdes – Inosel. Valendo-se da metodologia do design em parceria e tomando como premissa o papel do designer como agente de transformação social, as autoras relatam, neste artigo, o caminho percorrido para propiciar o empoderamento das participantes.

No artigo “Práticas contemporâneas do design”, Cláudio Boni, Mônica Moura e Paula da Cruz Landim trazem, para o foco do debate, o papel do design na contemporaneidade, levando-se em conta os desafios socioambientais e a busca pelo equilíbrio entre as práticas de consumo e a conscientização das necessidades sociais e sustentáveis. Abordando algumas questões que se pautam nos pressupostos do design centrado nas pessoas e da inovação social, a partir de soluções criativas e colaborativas, os autores contribuem para uma compreensão da importância do engajamento dos designers na busca por soluções que avaliem criticamente o presente e que projetem o futuro para a humanidade. O artigo intitulado “Requisitos de projeto de sinalização ambiental para o Edifício Vilanova Artigas a partir de uma experiência didática”, de autoria de Jade Samara Piaia e Leandro Manuel Reis Velloso, aborda a metodologia e os desdobramentos de alguns projetos de sinalização edilícia, desenvolvidos especificamente para o edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e adotados como estratégia pedagógica. Além disso, o artigo apresenta, como uma das principais contribuições, uma lista de 12 requisitos que pode ser utilizada como referência para futuros projetos de sinalização ambiental.

 

Em “Subjetividade e objetividade: antinomia kantiana do gosto na arte e no design”, Sérgio Luciano da Silva e Dijon De Moraes exploram o potencial dos conceitos e modelos kantianos, transpondo-os para o campo do design, a fim de relacioná-lo com o campo da arte. Os autores, ao partir de um referencial teórico advindo da filosofia, valendo-se da tese do filósofo e teórico da arte Thierry de Duve, apresentada no livro “Kant after Duchamp”, questionam o campo do design como ciência e contribuem para uma discussão no âmbito da teoria e crítica do design.

Partindo de uma revisão de literatura, o artigo “A escada educacional do design thinking no Brasil: revisão sistemática nos Anais do P&D”, escrito por Marina Arakaki, Ana Cláudia de Abreu e Mariano Lopes de Andrade Neto, revela os níveis da aplicação do design thinking nos artigos publicados nos Anais do Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design (P&D) entre os anos de 2002 e 2016, levando-se em consideração a “escada educacional do design”. Pode-se verificar que, ao mapear as pesquisas divulgadas nos anais do P&D – principal evento da área do design no país –, os autores contribuem para estabelecimento de um panorama das abordagens sobre o design thinking no cenário brasileiro.

Problematizando algumas questões relativas ao design de livros e ao mercado editorial contemporâneo, os quais têm sido fortemente influenciados pelas tecnologias digitais, Maurício Elias Dick e Berenice Santos Gonçalves, autores de “O pensamento sistêmico no processo de design de livros digitais: a proposta ‘Framebook’”, propõem um framework para o processo de projeto de livros digitais composto por 13 fatores articulados entre si. Assim, adotando uma abordagem sistêmica, os autores caracterizam o livro digital como artefato que se constitui na inter-relação entre conteúdo, tecnologia e leitor.

As relações entre o campo do design e o ensino da geometria são discutidas no artigo “Design e o ensino da geometria no Brasil: das provas de habilidades específicas à matriz curricular do curso de Design da Universidade de São Paulo”, escrito por Frederico Braida, Rodolfo Eduardo Vertuan e Rodrigo Manoel Dias Andrade. Na pesquisa, a FAUUSP também foi tomada como estudo de caso. Ao final, os autores apontam para a necessidade permanente de se refletir criticamente sobre as habilidades e competências em geometria demandadas aos ingressantes nos cursos de design e contempladas durante a formação no ensino superior.

Em “Iluminação e segurança pública: uma investigação sobre a relação entre design e criminalidade urbana pela perspectiva feminina”, de Victória Loureiro Cardoso e Sílvia de Alencar Rennó, encontra-se uma discussão sobre a segurança das mulheres em pontos de ônibus no Brasil. Adotando a cidade de Belo Horizonte como um recorte espacial e enfocando as relações entre iluminação urbana e segurança no espaço público, as autoras identificam alguns fatores ambientais que podem contribuir com o planejamento urbano, a fim de preservar e promover o direito da mulher à cidade.

Trazendo também algumas questões que perpassam os temas do design centrado no ser humano e da visão sistêmica, em “UX-QUALI-MAP: uma ferramenta de mapeamento da atividade focada no suporte ao design para experiência”, Genilda Oliveira de Araujo e Lizandra Garcia Lupi Vergara apresentam uma ferramenta de mapeamento da atividade. A ferramenta

 

proposta, que estimula uma visão sistêmica das dimensões afetiva, racional e sensório-motora, possui um potencial didático e fundamenta-se no relacionamento conceitual entre a teoria da atividade e a teoria de affordances.

Já as casas colaborativas foram tomadas como objeto de estudo na pesquisa relatada no artigo “Utopias/distopias e heterotopias em dispositivos de design: reflexão metaprojetual sobre Casas Colaborativas”, de Claudia Palma da Silva, Ione Maria Ghislene Bentz e Carlo Franzato. No texto, os autores, à luz dos fundamentos da metodologia do design estratégico, em abordagem metaprojetual, analisam a natureza hetero-distópica dessas casas e estabelecem algumas relações entre design, empreendedorismo, colaboração, inovação sociocultural e sustentabilidade.

Por fim, preocupados com a manutenção da relevância do ensino de design nos dias de hoje, sobretudo influenciado pelas tecnologias digitais, em “Modelo para estabelecer competências para o futuro do design orientado pelas tecnologias emergentes”, Christiane Costa e Alexandre Pelegrini evidenciam a necessidade de se estabelecer novas competências para o design, baseando suas ações na antecipação do futuro. Assim, o texto também contribui para a reflexão atualizada sobre pedagogia, conteúdos e competências relativas ao campo do design, com vistas ao futuro.

À guisa de conclusão desta apresentação, cumpre, além de parabenizar os autores pelas pesquisas empreendidas e a Revista Estudos em Design pela seleção dos artigos da presente edição, ressaltar que, conforme pode-se perceber, os onze textos aqui reunidos abordam temas que estão na vanguarda da discussão sobre o campo do design. Os artigos, advindos de diferentes matrizes conceituais e metodológicas, constituem um mapa composto por diversas trajetórias que, sob alguns aspectos, se hibridizam e indicam algumas rotas possíveis para o fomento das reflexões sobre a teoria e a prática do design na contemporaneidade.

Desejo que os artigos desta edição da Revista Estudos em Design sejam apreciados pelos leitores e que, além de oferecer respostas para algumas questões colocadas, suscitem novas inquietações que possam ser propulsoras de futuras pesquisas.

Prof. Dr. Frederico Braida


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