Design em Expansão: Teorias, Métodos, Práticas e Pluralidade de Objetos

Doris Kosminsky

Abstract


A primeira edição de Estudos em Design deste ano apresenta um conjunto de trabalhos que reafirma a relevância e a amplitude da pesquisa em Design na atualidade. Os textos aqui reunidos evidenciam um campo em contínuo desenvolvimento, caracterizado pela diversidade de temas, objetos de estudo, perspectivas teóricas e abordagens metodológicas que hoje orientam a produção acadêmica na área. Tal diversidade revela a consolidação de um campo que vem ampliando sua capacidade de formular questões próprias e de contribuir, de modo consistente, para o debate contemporâneo.

Nesse contexto, a pesquisa em Design demonstra sua aptidão para articular reflexão teórica, investigação sistemática e prática projetual, em diálogo com diferentes áreas do conhecimento. Ao mesmo tempo em que preserva sua especificidade, o campo se mostra aberto a interlocuções que enriquecem seus fundamentos e expandem suas possibilidades de atuação. Questões sociais, culturais, tecnológicas, ambientais e educacionais passam, assim, a compor de maneira cada vez mais decisiva o horizonte das investigações, exigindo rigor conceitual, precisão analítica e atenção às condições concretas em que o design se insere.

A presente edição inscreve-se nesse panorama ao reunir contribuições que refletem a vitalidade da pesquisa na área e a pluralidade de seus encaminhamentos. Os artigos publicados confirmam o papel de Estudos em Design como espaço de fortalecimento da produção científica em Design, acompanhando as transformações do campo e da sociedade onde se encontra inserido.

Na composição desta edição, esse vigor se expressa em um conjunto de artigos que, embora dedicado a objetos e contextos distintos, nos permite sugerir algumas aproximações que ajudam a evidenciar questões que atravessam o campo do Design.

No plano dos fundamentos teóricos e epistemológicos, três artigos se destacam por enfrentar, sob perspectivas distintas, problemas conceituais centrais ao campo. No artigo que abre esta coleção, Uma compreensão fenomenológica da Tecnologia no Design Estratégico, Giulio Federico Palmitessa e Guilherme Englert Corrêa Meyer propõem a fenomenologia-hermenêutica para realizar uma leitura ontológica da tecnologia, afastando-a de sua compreensão meramente instrumental e recolocando-a como fenômeno constitutivo da prática projetual. Em outro registro filosófico, João Batista da Silva Queiroz, Iara Sousa Castro e Maria Regina Álvares Correia Dias, em A simulação e as reflexões filosóficas do design em seis eixos, examinam criticamente as relações entre simulações e humanidade, articulando linguagem, sensibilidades, valores, conhecimento, realidade e cultura. Já Nuno Dias, em Design Centrado no Ser: Fundações espinosistas para práticas situadas, reposiciona o design a partir da sua potência expressiva e do projetar como composição de relações sensíveis entre potências situadas, favorecendo encontros alegres que ampliam a vida comum entre seres, ideias, objetos e ecossistemas.

As relações entre design, território e contextos de vida aparecem em Práticas de pesquisa em comunidades periféricas orientadas pelo design estratégico. Nesse artigo, Ione Maria GhisleneBentz e Paulo Henrique Bittencourt examinam o desenvolvimento de cenários para a comunidade Vida Nova, em Porto Alegre, evidenciando a potência do design estratégico quando articulado à cartografia, à complexidade e à escuta de demandas locais. Também atento à dimensão territorial, mas empregando a Design Science Research (DSR), o artigo Ressignificando o território: desenvolvimento de ferramenta para a criação de produtos de moda com identidade territorial, de Andreia Mesacasa e Sandra Regina Rech, desloca a discussão para o campo da moda, propondo uma ferramenta projetual baseada em noções de território, paisagem cultural, lugar e afeto.

A formação em design e os processos de aprendizagem constituem o foco de outros artigos deste conjunto. Em Estratégias didáticas para uso de IA Gen no ensino superior aplicadas a geração de alternativas conceituais de produtos, Andrea de Matos Machado, Suzi Maria Carvalho Mariño e Carina Santos Silveira, discutem a incorporação da inteligência artificial generativa em contextos formativos, examinando seus efeitos sobre ideação e construção de repertório. Já Lígia Gimenes Paschoal e Tatiana Sakurai apresentam os resultados de uma pesquisa documental em Identidade visual e arquitetura escolar: A condição atual da comunicação visual ambiental e gráfica das escolas municipais do CEDEC. Essas autoras recuperam a dimensão pedagógica da comunicação visual integrada ao espaço escolar nas escolas municipais de São Paulo entre 1990 e 1992, chamando atenção para o apagamento de elementos simbólicos e educativos originalmente presentes nesses ambientes. Por sua vez, empregando uma abordagem teórico-prática, Jorge Otávio Zugliani, Cássia Letícia Carrara Domiciano e Fernanda Henriques, em Ateliês gráficos: pontos de encontro entre Design Gráfico Experimental, Educação e Inclusão Social, investigam práticas gráficas experimentais como ferramentas didáticas capazes de favorecer aprendizagem, expressão e autonomia em contextos diversos.

Em Design, Estigma e Bioinspiração: ressignificando a percepção sobre tecnologias assistivas, Anderson Horta e Pedro Damas examinam como o conhecimento sobre o design bio-inspirado pode alterar a recepção simbólica de tecnologias assistivas, recolocando a questão do estigma no centro da discussão projetual. O artigo evidencia que a aceitação de artefatos não depende apenas de seu desempenho funcional, mas também dos sentidos e valores que os atravessam. Em diálogo com o horizonte da dimensão social do design, o artigo Design Arquitêxtil Humanitário: integração entre educação, inovação e colaboração, de Lara Leite Barbosa, João Victor Brito dos Santos Carvalho e Maria Goreti Leal Vanini Isaac, apresenta uma experiência que articula arquitetura, design e moda em torno de princípios de circularidade, coautoria e inovação social, reafirmando o potencial do design como prática regenerativa e reposicionando o papel ético do designer como mediador entre sistemas materiais e sociais.

Na seção de Iniciação Científica, Leonardo Ramsés Cunha Oliveira e Tiago Barros Pontes e Silvaretomamuma questão estrutural para o campo: a dificuldade de enquadrar sua pluralidade em modelos classificatórios rígidos. No artigo Design, epistemologia e a CINE Brasil: as contradições na avaliação dos cursos de design brasileiros, ao discutir os impactos da delimitação epistemológica do design sobre as métricas de avaliação nacional dos cursos superiores, o artigo contribui para um debate sobre a diversidade formativa e a padronização avaliativa.

Desejamos a todas e todos uma boa leitura. Que os artigos aqui publicados possam inspirar diálogos e reflexões voltadas para os avanços da pesquisa em Design no Brasil.

 

Doris Kosminsky

Professora Titula r/ Direção Adjunta de Pós-graduação / Escola de Belas Artes / Universidade Federal do Rio de Janeiro


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Revista Estudos em Design, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, ISSN Impresso: 0104-4249, ISSN Eletrônico: 1983-196X

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